Bairros

Mesmo caos, mesmos cenários | Isabele Benito


Sofá onde Luciana estava sentada com a família foi levado pela chuva – Reprodução

Sofá onde Luciana estava sentada com a família foi levado pela chuvaReprodução

“Foi um desespero, eu estava sentada no sofá com a pequenininha e do nada a água começou a entrar. Não deu tempo de tirar nada, encheu muito rápido! Só deu mesmo pra tirar as crianças, os exames do tratamento de câncer que eu faço, a televisão e o som”.

Conjunto Manguariba, Paciência, às margens da Avenida Brasil… Foi lá que na chuva da última sexta-feira, a manicure Luciana de Jesus Souza, o marido Nivaldo e os quatro filhos do casal viram tudo se perder com a força da água…

Não sobrou quase nada. Nem o sofá que a família estava sentada, eles conseguiram salvar!

“Nunca tinha passado por isso, porque moro há pouco tempo, mas todo mundo que mora aqui há anos diz que já tá acostumado, minha vizinha nem compra mais as coisas, porque perde tudo”, conta Luciana.

É drama, prejuízo, mas que infelizmente é a realidade de anos e anos de muitas famílias do Rio de Janeiro, que sofre as consequências das chuvas.

Chuvas essas que ninguém pode controlar, a gente sabe! Mas o caos poderia ser evitado, se as autoridades, como eu sempre falo aqui e já tô cansada, investissem em políticas públicas de saneamento para essa população.

Se eu for listar a quantidade de lugares que eu já citei aqui que sofrem com as chuvas, nesses quase três anos de coluna, a gente não acaba hoje.

É em tudo que é canto! Zona Sul, Norte, Oeste, Baixada… A situação de Nova Iguaçu, Belford Roxo, Mesquita é de partir o coração.

A gente nem se recuperou da porrada que foi Petrópolis e agora vem essa, nesses lugares e na Costa Verde. É lamentável! É inacreditável.

E o Drama de Luciana, essa guerreira que eu conheço há um tempão, não para por aí… Como ela disse no início, está em tratamento de câncer de mama e quase perdeu todos os exames pré-operatórios na água.

“Eu fico arrasada. Mal tenho dinheiro pra fazer esses meus exames e agora vou ter que montar casa novamente.”

Até a Kombi do marido dela, que trabalha com frete, e que é muito importante pra renda da família, sofreu prejuízo… Molhou inteira!

E aí, alguém vai pagar por esses prejuízos? Será que alguém vai se importar com o desespero que essa família está? Que todas essas famílias estão?!

Eu, infelizmente, duvido… Vão esperar a poeira e a água abaixarem.

Isso até a próxima chuva chegar!

3,2,1… É DEDO NA CARA!

PINGO NO I

Eu até que cheguei cedo, sem pressa na porta da escola, algo raro na vida de uma mãe que vive na correria.

Passei por um bolsão d’água já com dificuldade, mas nem imaginava o que vinha pelas próximas horas! A chuva apertou, vi que a agitação estava atípica e pensei: “Sextou!”

Na verdade, muitos já tinham ficado ilhados em seus carros ou presos antes daquele bolsão que passei.

Foi tudo muito rápido! Do corre-corre entre mães e inspetoras, a água subiu de forma assustadora. E o colégio do meu filho fica no pé da montanha!

Eu não respeitei o protocolo, e quando vi já estava no meio do pátio, que naquela altura já nem se via mais onde era calçada, quadra ou parquinho. Tudo submerso.

As crianças pequenas gritavam, as professoras imediatamente suspenderam a saída, mas meu filho já estava no meio do pátio. Me agarrei a ele e decidi seguir até o carro… Nessas horas, você já perdeu a referência, não sabe mais onde é rua, condomínio, você só vai! Entrei no carro e só pensava em sair dali.

Foram quase quatro horas entre brincadeiras dentro do carro, agonia, medo… No grupo de WhatsApp das mães, o desespero de quem não tinha conseguido chegar, mesmo sabendo que os filhos estavam relativamente seguros com professoras e diretoras.

Eu sei o que elas pensavam: queriam estar com os filhos.

Eu estava com o meu, mas mesmo assim pensamentos e culpa me passavam a todo momento: por que ter saído da escola?

Lembrei da tragédia da avó e da neta, quando uma pedra rolou e matou as duas e o taxista. Lembrei das reportagens que fiz ao longo dessa vida, me arriscando, mas nunca me imaginei ali, vivendo esses medos com meu filho.

Eu sei que perto das perdas materiais e da maior tragédia que é perder alguém, esse é apenas mais um relato de se viver nessa cidade que não consegue lidar com chuvas tropicais e que adora ser cantada como principal cenário de um país tropical!

Mas entendi que isso não é uma competição de quem sofreu mais ou tem a história mais assustadora pra contar.

Isso é Rio de Janeiro e viver sob risco iminente de qualquer coisa não é nada vitorioso.

Pelo contrário…

Fonte: Internet

Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Botão Voltar ao topo